A Beleza
Creio que a nossa vida inteira possa ser definida por nossos sonhos. Pela forma como os buscamos, pela forma como reagimos à sua concretização ou não, pela forma como vivemos à mercê deles. E nossos sonhos se transformam, se metamorfizam ao ponto de tornarem-se um membro presente de nós como se fosse um terceiro braço, um terceiro pé.
Infelizmente esperamos demais dos nossos sonhos. Esperamos, muitas vezes, que eles se realizem por conta própria. Que eles sejam mais que um membro ou órgão de nosso corpo e se tornem unidades autônomas capazes de gerir a si próprios. Esperamos que nossos sonhos criem pernas e realizem por nós tudo aquilo que temos medo ou insegurança de fazer. E um dia, se temos sorte, alguns deles realmente se concretizam. Outros não.
E o que fazemos quando percebemos que nossos sonhos se concretizaram? Ficamos felizes? Ah, sim... por algum tempo nos sentimos satisfeitos e completos. Até que percebemos que esquecemos de adicionar uma série de detalhes importantes na receita! E, ainda por cima, como não fomos nós que o realizamos e sim circunstâncias da vida, não podemos nem reclamar. O que fazer? Por que não existe sonho realizado que tenha uma bula com todas as especificações do que se fazer após tão imensa realização? Porque continuamos infinitamente com a sensação de que nos falta alguma coisa?
Essa pergunta me ronda desde que posso me lembrar de pensar... Por que não nos satisfazemos com aquilo que temos?
Depois de pensar muito e não chegar à conclusão nenhuma, ou seja, continuar na insatisfação, achei melhor aceitar mais esse fato da vida. Acredito piamente que somos destinados à perene insatisfação. Ao menos enquanto nossa mente e espírito falarem línguas tão diferentes. Ao menos enquanto somos parte tão integrada de nosso meio ambiente, ao menos enquanto temos necessidade de evoluir como seres. A insatisfação, por mais triste e mesquinha que pareça ser, é um dos mecanismos mais perfeitos que desenvolvemos. Ela nos permitiu sobreviver em um ambiente absolutamente hostil onde éramos presas e transformar-nos em predadores. Permitiu-nos criar mecanismos de reprodução diferente de todos os demais animais de forma a burlar a parte racional de nós. Permitiu-nos conviver em tribos e aprender uma forma de comunicação mais sofisticada. Permitiu-nos criar, a criar com nossa infinita insatisfação e busca da beleza.
Nossa insatisfação nos ajuda a andar avante e buscar a beleza dentro e fora de nós. E aqui penso estar boa parte dos nossos problemas com a satisfação. Acho que nesse ponto da nossa evolução como animais, pudemos constatar que já sabemos bastante de como encontrar a beleza no nosso mundo externo. Sabemos reconhecê-la, sabemos apreciá-la e, muitas vezes, sabemos criá-la.
Mas não creio que tenhamos aprendido assim tão bem a reconhecer, apreciar ou criar a beleza dentro de nós. A preservá-la e amá-la. Deixamos que toda essa incrível beleza externa que descobrimos tão bem como criar nos distraia e esquecemos de cultivar nossa parte realmente bela.
Talvez seja por isso que nossos sonhos realizados nos dêem uma alegria efêmera e logo passamos a procurar novos sonhos. Ou talvez seja por isso que nos é tão difícil aceitar que a vida do sonho é essa, ajudar-nos a andar cada vez mais longe e morrer feliz e satisfeito por ter cumprido sua missão.
Difícil é compreender a sensação de vazio e uma certa certeza de que não conseguimos superar às expectativas. Hm... Novamente encontramos a boa e velha expectativa a sondar nossas vidas. A impregnar meus textos como uma lição que ainda não aprendi.
Expectativas de que, pergunto-me. Expectativas de quem, de como, de onde, por quê????
Algum dia conseguimos superar alguma expectativa? Sério? Será que conseguimos 100% superar alguma expectativa? Será que contentamos todo mundo envolvido no processo? Será que não magoamos ninguém no nosso caminho pela pista de corrida, será que não deixamos para trás um rastro de destruição de sonhos alheios? Será que mesmo quando tentamos ao máximo, ao máximo que podemos, fazer absolutamente tudo certo e perfeito... será que conseguimos? Será? Será???
Não creio.
Não acredito que seja possível alegrar a todos, não creio que seja possível não machucar àqueles que amamos, não creio que seja possível que possamos conquistar nossos sonhos sem prejudicar, mesmo que de forma indelével, o de outros. Infelizmente, todos nós temos nossas expectativas e precisamos, repito, PRECISAMOS que elas sejam constantemente frustradas. É a única forma que, até o momento, encontramos para aprender a dar menor valor à elas. A única forma que aprendemos que o sofrimento e dificuldade são parte integrante da felicidade. Que nossos sonhos podem nos dar uma imensa felicidade e ao mesmo tempo um vazio de igual tamanho. É a única forma que temos de evoluir.
Acredito, porém, que podemos fazer o melhor que conseguimos. Podemos, mesmo assim, errar ao pesar nossas prioridades, podemos ferir todos os envolvidos e podemos machucar a nós mesmos. Mas no caminho também podemos descobrir o quanto é importante diminuir nossa bagagem emocional de sonhos e expectativas frustrados. O quanto é importante pesarmos cada momento de nossa vida de forma única, deixando-o puro de lembranças e do passado. Saboreá-lo longamente e desfrutá-lo ao máximo. Vivê-lo e preservar dele a beleza que em nós é manifestada.
Nosso caminho para a felicidade pode ser visto como calcado sobre a frustração de expectativas de todos àqueles à nossa volta. Ou podemos escolher vê-lo como uma estrada em que todos aqueles à nossa volta e que nos amam calcaram a estrada com suas mãos estendidas para nos ajudar. Naturalmente pisamos nessas mãos porque essa é a forma que aprendemos a nos locomover. Pisamos com mais ou menos impacto, mas infelizmente pisamos. Até o dia em que aprendemos a levitar e tocar bem de leve na nossa “estrada” para deixar que as mãos apenas sintam a carícia de nossos pés.
Assim fazem por nós e assim devemos fazer pelos outros.
A beleza em nós independe das frustrações de nossos sonhos e independe de nossas expectativas e frustrações. A beleza dentro de nós nasce e morre conosco. Muitas vezes morre intocada e submersa, escondida e quieta. Mas sempre, sempre presente. A beleza dentro de nós depende apenas da nossa forma de sentí-la, buscá-la e mostrá-la. Alguns de nós irão encontrá-la enquanto realizam e buscam sonhos e expectativas. Alguns irão encontrá-la independente do caminho que tomem. E alguns não irão jamais saber o que fazer com tudo aquilo que sentem mas não sabem demonstrar. E essa é a beleza da beleza... Ela é diferente em cada um de nós... Assim como somos diferentes, únicos e incríveis. Assim como vivemos e morremos de forma diferente.
Em nós, apenas uma única coisa é igual para todos... a vontade de ser feliz. Através desse único sonho em comum construímos uma humanidade, somos unidos ou separados, somos irmãos ou inimigos. Basta que paremos de dar tanta importância às expectativas que não superamos e comecemos a dar mais importância à beleza que é o nosso sonho em comum para começarmos a encontrar mais e mais belezas internas pela nossa estrada. E, espero sinceramente, para começarmos a levitar mais e não machucar tanto as mãos que apenas nos ajudam...
A todos aqueles que sempre me ajudaram... Espero que eu consiga pisar cada vez mais leve e acariciar mais suas mãos... Não posso agradecer pelo futuro, mas posso dizer que certamente meu presente é bem mais incrível porque vocês estiveram comigo e ajudaram-me a encontrar a beleza à minha volta.



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