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Saturday, February 18, 2006

Quase


Esse é um texto que escrevi em 2004... Mas ainda bem válido! :)



Bah! Quanto tempo que não escrevo!!! Creio que a gente vai se acomodando, encontrando desculpas e mais desculpas... até que um dia percebe que um longo tempo passou e não fizemos o que gostaríamos de ter feito...

Hoje é 11 de Setembro. Três anos após o atentado à Nova York. Quanta coisa mudou, né? Possivelmente uma enormidade de pessoas que se deixavam levar pela rotina mudaram. Aposto que muitas pessoas não deixaram para amanhã o que poderiam fazer hoje. Aposto que, ao menos naquele ano de 2001, uma enormidade de pessoas deu mais valor à vida.

Assim como depois de Madri. Assim como depois de Beslan. Por sinal, a que ponto podemos chegar, não? Um atentado terrorista em uma escola, matando quase 700 pessoas, na maioria crianças! O mais incrível é que nem dá para culpar outra espécie ou aliens.. São representantes da nossa própria espécie que nos mostram o quão bestiais podemos ser.

Pois é... Imagino eu que sempre haverá grandes tristezas que usamos como aviso para despertar e fazer aquilo que nos propusemos a fazer. O que para nós é importante. Nossas prioridades.

Mas, na maior parte do tempo, passamos a vida em um mundo “meio termo”, “em cima do muro”, “no meio do caminho”. Caímos no “QUASE”. Quase escrevi, quase aprendi a tricotar, quase fui pianista, quase gostei de você, quase fui amada... QUASE.

Quando tempo de nossas vidas dedicamos ao quase? Puxa, se a gente parar e resolver se imbuir da mais profunda sinceridade, QUASE toda a vida. O que nos salvam são os instantes em que o quase vira fato. Se não fossem esses instantes, nós quase teríamos sido concebidos e quase teríamos vivido para quase passar pela vida e aprender que quase viver não é suficiente. Nem perto de ser.

Eu quase escrevi tantas vezes... Em outras, cheguei a escrever e quase enviei o email. Mas não fiz nada disso... No processo, deixei de saber novidades, deixei de conversar com pessoas que amo e deixei de partilhar tantas coisas que gostaria de ter dividido. E infelizmente, nesse caso não foi quase. Simplesmente não aconteceu.

E assim vamos aprendendo. Não creio que precisemos de pessoas morrendo de forma horrenda para nos lembrar que a vida não é feita do que quase fizemos e sim daquilo que efetivamente fazemos. Não precisamos de guerras para provar que estamos vivos. Basta amar. Basta sorrir. Basta cantar. Basta sentir. Basta. Pronto, vivemos inteiramente e não mais quase...

Tão simples a fórmula, não? Por que nos parece tão difícil evitar o quase?

Bem, dessa vez não vou contar de viagens ou as partes engraçadas da viagem... QUASE acrescentei, mas não o fiz. E pronto. Porque o quase dessa vez significou que eu substituí a proposta inicial por outra. Foi melhor? Foi um momento quase? O que nos dá a certeza de que um “momento quase” não é um “momento fato”... Hm, creio que só nós mesmos temos essa resposta. Creio que justamente ESSE é um dos maiores dilemas da vida.

Um tempo atrás eu li um livro que se tratava justamente disso... Os caminhos que tomamos na vida, nossas escolhas. O que nos garante que uma escolha seja melhor que a outra. Que um momento quase não é um quase e sim a melhor escolha que fizemos na vida. Afinal de contas, eu quase poderia ter perdido meu filho durante a gravidez... Eu quase poderia não ter vindo para a Itália. Eu quase poderia não ter conhecido você. E que seria de mim? Certamente eu não seria eu e, supostamente, você não seria você.

Nossas vidas estão conectadas e a escolha de um afeta o outro. A chave está realmente nessas escolhas. Porque muitas serão consideradas como “quases” e outras como excelentes opções. Por algumas são aplaudidas e outras seriamente criticadas? Quem é o juiz dessa nossa partida?

Hoje, nesse instante da minha vida, nesse singular momento... posso dizer que só tenho a agradecer as minhas “quase” escolhas. Aos meus quase momentos. EU SEI que viver no quase não é lá muito legal. Eu sei que devemos fazer aquilo que queremos, ter nossas prioridades, etc.... Mas gente, se não fossem os meus “quases” eu não teria errado (e estaria errando), eu não teria aprendido ( e estaria aprendendo). Eu seria perfeita. Eu estaria morta, porque obrigatoriamente o que é perfeito significa que está completo e o que está completo está finalizado.

Só posso imaginar que os “quases” podem ser bons, desde que saibamos escolhê-los bem. Desde que saibamos viver com nossas escolhas. Vamos errar e vamos magoar pessoas que amamos, algumas vezes vamos poder compensá-las e outras não. Alguns erros terão conserto, outros não. E não tem choro porque a vida continua.

Creio eu que é justamente nesse segundo que definimos se as nossas escolhas viram “quase momentos” ou viram as “escolhas que nos trouxeram até aqui”. Na hora em que as aceitamos como parte de nossa vida e seguimos em frente.

Na hora que paramos de preocupar-nos com o que quase fizemos e damos mais atenção ao que fazemos. Na hora em sonhamos e crescemos, amamos e choramos. Na hora em que cantamos e damos risada, em que trabalhamos e conversamos.

Na hora em que vivemos e descobrimos quem realmente somos.

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